
Está tudo tão na sua cara que você quase tropeça. Tudo tão igual que nem surpreende mais; são programas, filmes e pessoas tão iguais que para achar alguém que realmente te passe algo de novo é preciso vasculhar muito.
Um trecho extraído do livro Comunicação e Sociedade do Espetáculo de Cláudio Novaes Pinto Coelho, 2006, p. 89 exemplifica bem o que eu quero dizer:
O que mais me preocupa é essa febre por reality show. Até quando as pessoas vão continuar com essa ilusão de que elas que decidem quem ganha e quem sai do programa? Ou que por algum caso algum deles é diferenciado. Ninguém percebe que todos os participantes foram escolhidos com o propósito de se moldar a esse tipo de espetáculo para que você possa consumir sem perceber? Quem entra, quem sai, quem vence cada prova e quem será o querido do público já foi escolhido previamente; você não tem voz nenhuma em nada disso. Apenas senta, assiste e consome sem se perguntar nem o porquê, ou se aquilo é relevante na sua vida. O segredo é você ter a sensação de uma daquelas pessoas poderia ser você.
É um jogo de interesse entre os participantes, a mídia e os patrocinadores. O último caso disto foi a eleição do 8º integrante do CQC. Descaradamente algo com cartas marcadas. Ajuda na edição, concorrentes de que comuns não tinham nada. E para tentar disfarçar eliminaram o motivo de todo o protesto e mesmo assim continuou na cara quem são as cartas marcadas.
E o pessoal vai lá, vota, torce, se mata para que o seu eleito seja o grande vencedor. Pura balela. Você não decide e nunca decidirá nada. Tudo já foi planejado desde o começo para causar a impressão de que o público tem o poder; mas na verdade só querem te fazer acreditar nisso.
Os conteúdos estão tão vazios que qualquer mera competição, seja para eleger o ganhador de uma fazendo ou uma top model vira sinônimo de febre; a única coisa que as pessoas conseguem consumir é isso; é simples, fácil e não precisa de compreensão ou explicação aprofundada.
A identificação pessoal com o fato midiático é que faz com que ele seja consumido à exaustão. O resultado isso é a criação de um modelo que é vendido para todo mundo como algo revolucionário; e a cada nova exibição se muda a roupagem, mas nunca o conteúdo principal.
Enquanto as pessoas estão entretidas, se vendo refletidas e consumindo o produto, a indústria cultural trata de lançar campanhas para que outros produtos sejam consumidos por conta desses programas.
Você nem ao menos escolhe mais a marca do jeans que vai vestir; a mídia faz isso por você ao colocar marca X no programa onde você pensa que decide. Cada produto foi criado fielmente para dar essa sensação de que o telespectador escolhe e assim sendo tem o controle da própria vida.
E quanto mais a indústria cultural empurra para o telespectador produtos midiáticos como este, mais é a fúria de consumi-lo e tentar ser a mais nova sensação do momento; sem ao menos ao certo perceber o que tudo isso significa e a falta de mensagem e conteúdo que você compra.
Não é necessário dispor de muita atenção para saber que quanto mais produtos são vendidos (entenda-se produto por programas de televisão), mais as pessoas se esquecem de que eles deveriam conter algum conteúdo. Não se debate mais para chegar a uma solução, a ideia agora é apenas te prender para que você observe aquele fato, se identifique, se veja refletido nele e por final o consuma.
Não caia no conto do vigário de que você é aquilo que você deseja e não algo que a sociedade do espetáculo quer que você seja. De tanto consumir você acaba sendo uma cópia fiel de tudo o que ela apresenta; e o pior que nem percebe o caminho pelo qual foi levado.
É preciso parar com essa mania de pensar que os realities shows selecionam pessoas comuns e que não estão lá apenas para compor um quebra-cabeça muito bem montado com um final totalmente previsível.
E a meu ver, quanto mais a mídia tenta negar essa manipulação – seja por imagens editadas, pessoas selecionadas, pior a imagem dela ficará perante a quem percebe o que ocorre. Não é tão difícil perceber.
Assim como em qualquer começo de filme você é capaz de saber o final e como o herói foi criado, nos reality shows e qualquer outro programa você também consegue perceber o que a indústria cultural quer que você assista, use, pense e consuma.
OBS1: Teorias baseadas na Sociedade do Espetáculo de Guy Debord e Comunicação e Sociedade do Espetáculo de Cláudio Novaes Pinto Coelho.
OBS2: Sim, como você leu na minha bio aí do lado eu sou Jornalista então na mente de alguns eu não deveria criticar a mídia, já que faço parte dela. Mas não é porque eu faço parte que eu preciso compactuar com tudo o que há nela.