terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Menina meiga, mas nem tanto

Para ser sincera, sempre tive certo preconceito com os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme. Nunca achei que foram tão “UAU” quanto eu esperaria de um longa premiado com tal honraria.
Mas o trailer do Cisne Negro (Black Swan, 2011) me chamou atenção; queria ver realmente como o diretor e os atores conseguiram traduzir num simples cenário de balé algo tão dramático e transformador como o sofrido pela personagem – ou seja, a menina meiga se transformando na megera ou bitch, como preferirem.
Há duas maneiras de interpretar o filme: você pode pensar em obsessão ao extremo ou a queda da inocência – ou ainda cortar toda a manipulação externa e viver aquilo que se quer; eu prefiro pensar em um misto de todas essas coisas com certos agravantes.
Nina Sayers (Natalie Portman) é uma bailarina quase no auge da carreira. A primeira vista ela é bem sem sal e sem açúcar – ok, eu sempre achei ela sem tempero nenhum. Uma garota meiga, confusa, insegura e que ainda não conseguiu se libertar nem da mãe, muito menos da infância, apesar dos seus 24 anos. Ela vive o que os outros querem que ela viva.
Com a aposentadoria de uma das bailarinas, Beth MacIntyre (Winona Ryder), que até então era a Rainha dos Cisnes, Nina tem a chance de tentar o posto de “supra-sumo” do Lago dos Cisnes. Para isso, ela precisa ser escolhida por Thomas Leroy (Vincent Cassel), diretor da companhia de Balé em Nova Iorque. E claro, como todo homem no meio da mulherada, banca o Don Juan geral na meninada.
É então que a trama começa. Nina é aquela personagem chata: a menininha insegura e perfeccionista – daquelas que você tem vontade de dar um tapa na cara para ver se acorda. E toda essa pressão é entendida pelo comportamento de sua mãe, a bailarina aposentada Erica (Barbara Hershey).
Erica é certamente a primeira causa do surto de Nina: mulher amarga e possessiva que a trata como uma criança, controlando seus horários, o que come, o que veste e ainda a deixando em um quarto totalmente infantil – daquele tipo que só falta pegar na mão e deixar na porta do ensaio. Ou seja, 200% controladora; ela trata a filha como uma bonequinha de luxo em forma de gente. Não demora muito para Nina surtar.
A obsessão pela perfeição começa quando Nina se depara com Lily (Mila Kunis), uma bailarina vinda de São Francisco e totalmente fora do normal; se Nina tende a ser perfeita, Lily é seu oposto, porém consegue o mesmo resultado que Nina, o que a deixa mais enfurecida ainda por ofuscar o momento que deveria ser dela.
Toda pressão de ser perfeita começa a surtir efeitos, muito bem explorados pelo diretor Darren Aronofsky, que consegue causar arrepios nas cenas em que a unha, ou um pedaço de pele se solta da personagem principal. Nina começa a se arranhar e a metáfora de que ela está passando de Cisne Branco para Cisne Negro começa no momento em que ela realmente imagina ter pedaços de penas saindo dos lugares onde estava arranhado.
Nina é perfeita para ser o Cisne Branco, mas não tem personalidade o suficiente para se tornar o Cisne Negro – e no Lago dos Cisnes, a transformação tem que ser feita com a mesma bailarina.
Toda essa pressão, mais a concorrência de Lily fazem Nina se transformar por completo; parece que acorda do torpor da vida que levava. O primeiro passo é se desprender a lunática e amarga mãe; depois Nina começa a perceber que ser boazinha o tempo todo, de nada vai lhe adiantar.
De que adianta ter sido boazinha a vida toda se no momento em que ela precisou se impor, surtou de uma tal maneira que acabou com a própria vida? Ela viveu uma vida que não era dela; e quando começou a realmente ter controle sobre tudo o que queria as alucinações e o medo de que Lily tomasse seu lugar foram iminentes.
Na verdade, no fundo Nina queria ser como Lily; livre, sem preocupações e com luz própria. Nina nada mais era do que uma garota que decorou muito bem os passos de balé, quando na verdade era preciso muito mais para se tornar uma bailarina completa. Ela não fazia isso porque que queria, por paixão, e sim porque alguém a estava mandando. Neste caso, por pura pressão da mãe. Provavelmente o único lapso de vontade própria da personagem acabou com ela totalmente pirada entre a transformação de Cisne Branco para Negro.
A fotografia do filme é boa e os atores realmente se esforçaram para incorporar o papel na dança, apesar de que em muitas cenas é dá para ver claramente o uso dos dublês. E Natalie Portman não ficou com muito trejeito de bailarina em algumas cenas.
Um bom filme, não brilhante, mas que consegue captar um pouco da angústia de ter que ser perfeito o tempo todo, e de passar os dias querendo algo que não sabe se é aquilo mesmo; de fazer as coisas por fazer, até surtar.

Mais cedo ou mais tarde, todo bonzinho larga a máscara angelical de lado e acaba surtando.

Um comentário:

Carlos disse...

Vou só para rever Barbara Hershey, que fez belos filmes com Woody Allen.

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